Médicos de hospital criado por Irmã Dulce em Salvador relatam ensinamentos da freira: ‘Não dizia não a ninguém’

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Médicos de hospital criado por Irmã Dulce em Salvador relatam ensinamentos da freira: ‘Não dizia não a ninguém’

Quando foi criada, unidade contava com trabalho voluntário dos profissionais. Atualmente, após mudança em leis trabalhistas, eles são pagos, mas lema de doação é o mesmo.

Pacientes atendidos todos os dias no Hospital Santo Antônio, criado por Irmã Dulce em Salvador, convivem com o mesmo clima de doação espiritual de quando a freira ainda era viva, há quase 30 anos. O lema de amar e servir, sem olhar a quem, é a herança que a futura primeira santa brasileira deixou para os médicos que atendem na unidade.

Saiba tudo sobre a canonização de Irmã Dulce
“Não tem hora, nem no dia, nem da noite, pra receber os doentes. Nós procuramos embutir no espírito dos médicos e de todos os profissionais que trabalham aqui em ver a imagem de Deus na presença dos doentes que nos batem à porta”, retratou Irmã Dulce, quando ainda era viva.

O cuidado aos pacientes é refletido nos relatos que eles mesmos fazem questão de compartilhar quando falam da unidade de saúde, que fica na sede das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), fundadas há 60 anos, a partir de um galinheiro.

“A gente chega arrasada, acabada, e sai do jeito que eu saí: alegre e feliz. Com saudade do hospital, por causa da maneira que trata a gente. O cuidado. É de verdade. Sai do coração. E as médicas, todos médicos, enfermeiros, são ótimos. Já está na trindade de Deus, essa bondade daqui. Como se fosse Irmã Dulce atendendo a gente, os pacientes”, conta Dionísia Santos, paciente.

“Eles são um anjo aqui na nossa frente no hospital Irmã Dulce, eles são humanos. Eles tratam a gente sempre com muito carinho”, retrata a paciente Iêda Branco.

Palavras de gratidão. Em cada depoimento de quem passa pelo hospital, a sensação é de acolhimento. E andar pelos corredores do complexo é realmente sentir como se a freira ainda estivesse mesmo presente. Em cada cantinho, lá está ela, representada em imagens, fotos e mensagens.

“Sei lá. Parece que tem uma energia que vem dela pra gente. Passa pra gente. Ainda hoje. É como se ela realmente estivesse presente. Presente! Eu sinto muito a presença dela. Qualquer dificuldade que nós temos aqui, ai ai… ‘Irmã, entra aí’. Às vezes dou risada porque eu falo: ‘Irmã, se apresente’. Continuo presente. Aí olho pro quadro. Faz parte do corpo médico? Faz parte, faz parte. A gente sente mesmo. Nesse ponto a santidade dela é impressionante”, conta a doutora Ive Serra.

Com mais de 40 anos de profissão, a médica começou como voluntária no atendimento médico das obras, quando a lei de voluntariado permitia, e hoje é líder do serviço de endoscopia. Conviveu com Irmã Dulce e guarda até hoje o que aprendeu com a freira.

“Não dizia não a ninguém, e ela queria que a gente fosse da mesma maneira. E a gente sempre foi. Aqui a gente sempre tá procurando fazer o melhor para os pacientes”, conta.
Unidos pela medicina e pelo afeto. Um modelo humanizado de atendimento que Irmã Dulce implantou e um dos principais motivos para reunir nestes mesmos corredores, pai e dois filhos.

O médico Carlos Geraldo também começou como voluntário no hospital. Ele conviveu com a freira e passou para os filhos a lição que trouxe daqueles tempos: abraçar o paciente não só com conhecimento técnico.

“Ela me pegava pelo bracinho assim: ‘Vem cá meu filhinho, já tomou seu café? Agora vamos trabalhar’. E não podia negar atendimento a ninguém. Nunca, nunca, porque a última porta a se fechar era Irmã Dulce”, conta.
“Pra mim, voltar como médica aqui é fazer exatamente isso: olhar o bem, sem olhar a quem. Tentar mais servir”, fala Thiara Gusmão, oncologista e filha de Carlos.

“É um amor, mas não é um amor qualquer. É o amor de Cristo, é um amor genuíno. Porque se ama não se ama porque deseja algo, porque quero algo, ama porque ama, e isso é transmitido. Isso ela passou. Eu não a conheci, mas conheci quem conviveu com ela e a gente vê que isso é transmitido mesmo, como se fosse uma genética, como se fosse uma raiz do serviço”, contou.

A raiz de um solo fértil onde as semente de Irmã Dulce foram plantadas e até hoje brotam em demonstrações de amor.

“A gente sente a energia daqui que eles fazem com amor. O trabalho de Irmã Dulce é feito com amor, gente. É a energia que ela teve, o amor dela, ela nos passa isso ainda. É a energia, é a luz que Irmã Dulce plantou nesse mundo, ainda reina aqui. Isso se chama amor, é luz. Então a energia vai vibrar, vai vibrar sempre”, diz Carlos Antônio Moura, outro filho do médico.

Canonização
A canonização de Irmã Dulce será realizada no dia 13 de outubro, no Vaticano. Regida pelo Papa Francisco, a cerimônia ocorre durante o Sínodo da Amazônia. Além de Irmã Dulce, no mesmo dia, serão canonizados outros quatro beatos.

Durante a cerimônia, o Papa Francisco será presenteado com uma parte do corpo da freira. Os restos mortais serão entregues em um relicário acompanhado de uma pedra ametista, que terá formato de coração. A parte do corpo presenteada não foi divulgada.

Irmã Dulce teve a canonização marcada após o Vaticano reconhecer dois milagres atribuídos a ela. O primeiro foi reconhecido em outubro de 2010, quando Irmã Dulce foi beatificada. O segundo foi reconhecido em maio deste ano.

Os dois casos estão entre os três que eram analisados no Vaticano. Os relatos de milagre foram enviados pelas Obras Sociais Irmã Dulce, em 2014, após avaliação de profissionais da própria instituição, reunindo mais de 10 mil casos na sede da instituição, em Salvador.

A canonização da freira será a terceira mais rápida da história (27 anos após seu falecimento), atrás apenas da santificação de Madre Teresa de Calcutá (19 anos após o falecimento da religiosa) e do Papa João Paulo II (9 anos após sua morte).

NTH – G1

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